
Foto:
Adriano Gambarini
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Segundo
a lenda, Chiang Nu esperaria, em vão, durante dez anos,
o regresso do seu marido. Até que, um dia, num acesso
de coragem, partiu em sua procura. Os soldados que montavam
guarda responderam-lhe, rindo, que seu marido havia morrido.
E disseram que para ela poder vê-lo, teria de demolir
sozinha a muralha. Então Chiang Nu voltou-se chorando
aos deuses. |
E
chorou tanto que suas lágrimas escavaram a base da muralha
até que esta desmoronou. Entre as pedras desordenadas apareceu
então o corpo de seu marido. Chiang Nu pôde levá-lo para a
aldeia e dar-lhe uma sepultura, plantado sobre o túmulo de
terra fresca (conforme o costume) um arbusto verde. Entretanto,
conforme continua a dizer a lenda, Chiang Nu foi, mesmo na
sua dor, uma esposa com sorte, pois o número de vítimas seria
igual aos das pedras utilizadas para a construcão.
Já a história conta que os trabalhos da primeira muralha,
a dos Chin, duraram dez anos, exigindo a participação de 300.000
homens. Muitos mais foram empregados pelos imperadores Ming,
quando foí decretada a reconstrução do longo baluarte.
| É
melhor começarmos esclarecendo que o que há de mais antigo
nesta muralha é a sua concepção geral, com fins defensivos
que romontam aos muros levantados por cada um dos estados,
entre os séculos V e II A. C. Estes primeiros sistemas
defensivos, de iniciativas isoladas, converteram-se em
um sistema unitário quando Chin Shih Huang - ti unificou
o império entre os anos 221 e 206 A. C.. |

Foto:
Adriano Gambarini |
A dinastia dos Han ( 206 a C. a 220 D.C.) levou avante a obra,
mas foi preciso que a China "Han" fosse incorporada ao imenso
imperio Mongol do Século V d.C. ( período em que a Grande
Muralha perdeu toda a sua importância e estratégia, sendo
abandonada com a expulsão dos mesmos à época da dinastia Ming
- 1368), para que surgisse a consciência nacional chinesa
e o interesse pela importância da barreira defensiva voltasse
a adquirir toda a sua força e vigor. E aquilo que admiramos
hoje é, precisamente, a muralha do período dessa poderosa
dinastia que a reconstruiu sobre o traçado anterior. E, em
grande parte, a refez por inteiro, já que após oito séculos
de total abandono, da primeira muralha não restava nada além
de montões de pedra sem forma.

Foto:
Adriano Gambarini |
A
Segunda e definitiva muralha, cujos trabalhos se prolongaram
até os principios do século XV, estendia-se desde o rio
Yalu Chiang, a leste, até a passagem de Chiayu-Kuan. Era
dividida administrativamente em nove comandos. No extremo
oriental, não passava de uma trincheira reforçada por
uma paliçada de ramos de salgueiro entrelaçados, e, como
é natural, disso nada resta. Mas, a partir da passagem
de Shan -hai Kuan, na fronteira com as provincias de llebei
e Liaoning, já era constituída de pedra. |
O
muro tinha 7m a 8m de altura, chegando a atingir 10 metros
em alguns pontos, e uma largura de 7 m de base e de 6 m no
topo. Foi erguida depositando-se, entre suas maciças paredes
de pedra trabalhada, um conglomerado de pedra e seixo, apinhado
e comprimido por meio de pesados troncos, até se converter
em uma massa compacta. A parte superior foi depois coberta
por três ou quatro camadas de tijolos superpostos em pisos
e unidos com cal, com duplo objetivo de se obter uma boa impermeabilização,
e de permitir uma cômoda passagem por ela. De quando em quando,
a parede abria-se numa porta, à qual correspondia uma torre
de vigilância. Outras torres estavam dispostas com intervalos
regulares. E algumas rampas permitiam o acesso ao patamar
sobre a parte superior da muralha. Em diversas partes da muralha,
havia terraços para sinalizações ópticas.
A função primordial dessa gigantesca obra foi claramente defensiva
mas o cuidado com que se procurou evitar qualquer obstáculo
por cima desses muros, realizando uma pavimentação lisa e
regular, demostra claramente que a muralha servia também a
um objetivo de comunicação. Desta forma, desempenhava uma
função de vital importância em regiões muito montanhosas e
pouco transitáveis. Neste sentido, a Grande Muralha é um prodígio
da engenharia de trânsito: sobre grande parte do seu caminho
de ronda poderiam circular, lado a lado, cinco cavalos. Era
portanto uma verdadeira artéria que servia, em primeiro lugar,
para a sua automanutenção e tambem como ligação rápida e fácil
entre localidades muito afastadas. Isso sem falar de seu aspecto
tático. Através dela, era possível, em pouco tempo, mandar
para os pontos mais vulneráveis da fronteira tropas e armamento.
Também
não se pode negligenciar a sua importância como via de distribuição
de todo o tipo de mercadoria e até de rota de penetracão em
outras regiões. Assim, permitia que colonos se transferissem
para zonas muita afastadas, sem perigo isolamento. Outro fator
relevante é o de que certos pontos desta construção favoreciam
as plantações cultivadas em sua base, detendo ou atenuando
as forças dos ventos fortes da estepe. Seu próprio traçado
coincide com o limite das chuvas permanantes, o que é demasiadamente
singular e notória para ser considerada mera casualidade.
Pode-se concluir com isto, que às exigencias fronteiriço-
defensivas seus idealizadores acrescentaram fins socio-econômicos.
Os
chineses falam em 10 000 li, um número que equivale a uns
5000 km. Mas isso não é uma maneira de esclarecer a questão.
Muito pelo contrário, já que 10000 li, na linguagem corrente
dos nossos dias, indica um número astronômico, inimaginável.
E, se, por outro lado, considerarmos que 5000 km correspondem
a um oitavo do meridiano terrestre, ficaríamos aturdidos perante
a simples idéia de que naqueles tempos fosse possível conceber
e realizar um projeto tão gigantesco.
Mas
foi o que aconteceu. E é exatamente no nascimento da Grande
Muralha, na divisão dos povos asiáticos em dois grandes blocos
muito concretos ( os demais para cá e os demais para lá do
muro) que se deve procurar a origem da China como nação.
Adapatado
do Texto de Gian Maria Tabarelli - Maravilhas do Mundo - Editora
Salvat do Brasil - 1985
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