" Sua pequena mão pousada sobre a minha,
Você, de mochila e mala de bordo pelos aeroportos
me ensinado que a inteligência não é maior de idade."

Era o primeiro trabalho de pesquisa de campo que eu e meu Filho, Pedro, faríamos. Juntos, iríamos desbravar o norte do Pantanal. A região pensava em expandir suas atividades turísticas, mas, até então, muito pouco havia sido feito. Embora fosse meu objetivo pôr Pedro a par do que desbravar pudesse significar, fiquei à espera da hora mais adequada, que não aconteceu. No fim, um dia antes de partirmos, escolhi alguns itens mínimos que deveriam entrar no mérito das nossas considerações:

1) Desta vez tudo que fizéssemos seria uma novidade.

2) Desta vez nós estaríamos desenhando com muito mais liberdade o nosso roteiro.

3) Desta vez não era um repeteco do que eu já conhecia . Não sabia o que viria pela frente, portanto, era um ir fazendo e ir experimentando.

4) Desta vez ele deveria entender que onde houvesse muito desconforto e pouca segurança, ele deveria ficar onde fosse mais seguro e aguardar o meu retorno.

E ele repetia: " Já sei mãe, já sei."

Em parte, sabia mesmo. Afinal, havia crescido nestes últimos anos e viagens, o suficiente para me dar um crédito importante: que eu saberia agir mesmo se não soubesse onde. E por isso também lhe dei meu voto de confiança.

Desde o começo tratei -o como se fosse capaz de entender o que quer que fosse. Assim, contribuí para que seus canais para o entendimento estivessem abertos e alertas. Na prática, fiz o seguinte

1) Disse o que sentia e lhe permiti interferir na questão.

2) Fiz o que acreditei ser melhor.

3) Quando não sabia , assumi o meu grau de desconhecimento, mas expressei minhas intuições e sensações.

4) Tentei ser prática nas ações.

Quando 10 minutos após a decolagem de Poconé, entrávamos na região do Pantanal, era evidente a emoção de Pedro. Nunca voara tão baixo (500 pés). E nunca o vôo havia sido tão corpóreo. O Kassele, o piloto, contribui com uma série de manobras radicais inesquecíveis. Descia vertiginoso para sair da teoria e entrar na prática.

Apontava "Vou descer pro ninhal" e descia. Carregadinho de aves, o viveiro explodia como fogos de artifício desenhando no ar uma explosão meteórica de garças brancas, para desespero dos ecologistas.

Mal chegamos à Fazenda S. Vicente e Pedro já quase pisou numa pequena cobra. "Mãe, vamos fotografar!". Ele disse fazendo o registro do acontecimento, enquanto eu pensava: "Galochas são necessárias."

A gente andou uns 50 metros até nossos aposentos. Eu admirava a fazenda, de fato ela era real. Nada destas fazenda - hotéis onde tudo parece ter sido rearranjado para ser uma outra coisa.

Na manhã seguinte, fizemos (eu e os jacarés) meia - sentinela à pescaria de Pedro. Não havia santo que desse jeito nesta minha inquietude. Olhava os jacarés e as pequenas piranhas pescadas com grande euforia pela criançada, reticente. Pedro, cauteloso, dava para o Bento, o Raul ou a Marcela, a linha com a piranha fisgada para que se tirasse o anzol daquela boca portentosa.

À tarde, saímos para o campo, para observar os animais. O Reginaldo dirigia a caminhonete e nós íamos na carroceria. Íamos atrás para ter uma visão privilegiada do campo, que mudava inúmeras vezes: cerrado, savana, arbustos fechados, e campinas. O carro seguia e cortava a mata que, freqüentemente, batia no rosto fazendo o maior estrago. Primeiro chamei a atenção de Pedro para que ele se segurasse. Mostrei os punhos cerrados. E mais um solavão, para logo em seguida o veículo empacar. Reginaldo rugia o motor violentamente querendo sair do lugar. Uma, duas, três, trava a roda, vai, vai... e foi num supetão de cair prá trás. "Segura firme, Pedro" e ele com a mão de luva não concatenava a urgência da instrução nem o tamanho da força necessária: "força Pedro", gritei.

Diante da aproximação de mais matagal, puxei -o com força fazendo com que ele caísse no assoalho do carroceria. Marcela e Raul também se recompuseram da queda abrupta mas Pedro não, ficou acuado. Eu o tinha envergonhado. Li, rápido aquele olhar de indignação. Não importava a minha precisão ( pensei), porque o tinha colocado em um lugar difícil sair: a incapacidade de não cair ou cair por si próprio.

Se estava envergonhada, ele nem se fala. Guardou a mágoa num lugar difícil de recuperar. À noite, tentei reverter a situação. Mãe, tem que agüentar o tranco e, embora me desagradasse a falta de jeito, mas na vida real, o ensaio é fato extraordinário, excepcional.

Pedro, no entanto, não deu sinal de conhecimento e, à sua maneira, se recompusera.

Embora quisesse imensamente me desculpar sabia que teria de esperar. Antes de deitar, disse:
- "Desculpe o mau jeito filho, mas não vi outra saída."
Meses depois, por volta das 10 horas da manhã de Sábado, nós cobríamos o trajeto da Vila Mariana até a estação S. Bento. O metrô estava bem movimentado, eu tinha além de livros na mão, uma mochila e uma pasta pesada. Então encostei-me a porta do vagão e segurei a barra de ferro como apoio. Pedro, então disse :
-" Mãe, não se apoie na porta, não tá vendo que você pode cair. E também segura direito, firme assim oh, ( mostrou as mãos apertadas), esse não é jeito de se segurar."

Que alívio no coração.... Viver é errar e aprender.

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