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Nosso
amigo Yuri, companheiro de variadas horas, esteve presente
em nossas vidas, mesmo quando ainda não sabíamos disto.
Onipresente, freqüentou o mesmo berçário que Pedro, meu
filho. E depois, por coincidência, mudaram para a mesma
escola, onde nasceu uma bela amizade. No meio de toda
esta convivência ( 9 anos), nem sempre pacífica, de personalidades
marcantes e contrastantes , fizemos planos de viajarmos
juntos. Cleide, excepcionalmente desta vez não nos acompanharia.
E, para que ficássemos mais consolados, iria em seu lugar
o Tigrão - belo exemplar do felino de pelúcia. |
| Sabia
que seria um grande desafio. Pedro e Yuri, apesar de grandes
amigos, eram muito diferentes. Enquanto um se entrega
à aventura e ao desconhecido facilmente o outro,
muito cauteloso, mede o esforço e o resultado. Yuri parece
ter o compromisso de que nada lhe escape. Pedro funciona
com pausas e folgas. Um é tão organizado e metódico que
chega a ser tedioso; o outro, de tão desorganizado, chega
a ser inconveniente. Juntos são uma experiência. Em comum:
energia de sobra, portanto a prática do convívio é um
exercício constante. Trocando em miúdos: paciência e tolerância.
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Estávamos
cansados no dia de nossa chegada a Joanesburgo. Mas a fim
de minimizar os efeitos do Jet- leg , demos uma rápida olhada
na cidade. A caminho do hotel, os meninos combinavam o banho
de piscina e nós contávamos que isto seria o arremate para
o nocaute . Fim de tarde, dito e feito, exaustos, pegávamos
no sono.
Tarde
da noite, um sutil lamento me desperta: a melodia de um choro abafado.
Havíamos discutido o fato de que a milhas e milhas de distância de casa
, Cleyde não viria resgatá - lo. Então comecei perguntando:
-
"Você não está com sono não é ?"
Ele resmungou
um não comedido e molhado. Então falei:
- " Melhor que a gente desça e faça alguma coisa por aí."
Yuri que sempre foi mais curioso do que melancólico, concordou e o choro
secou quase de imediato.
Nos
trocamos rapidamente. Descemos. Embora tarde, o Pub do hotel
estava aberto. Pedi um sanduíche e ele uma salada de frutas.
Enquanto comíamos e ele assistia a uma partida de futebol,
percebi que se queria melhor eficiência, a noite deveria ser
longa. Terminamos a refeição e sugeri que fossemos ao shopping
center, um surpreendente complexo de fronte ao hotel. Paramos
em uma loja de discos.
Yuri
sentou-se miúdo em uma espaçosa poltrona. Na mão alguns exemplares
jamais vistos, e um fone de ouvido. Pouco depois, cantarolava.
Em Africaner, quem sabe. Se balançava, ao som de uma melodia
que embora lhe fosse desconhecida, sei lá, parecia-lhe familiar.
Satisfeito, antecipava faixas e vez ou outra entusiasmado,
gritava :
- " Márcia, escuta essa aqui!, olha que bonita."
Àquela altura, já havia diminuído há algum tempo, o volume do meu aparelho,
para ampliar a cena. Meia - noite passada, estávamos eu e meu amigo
Yuri, felizes, a nos entreter com aquela melodia estrangeira.
Quando
retornamos ao quarto, os outros dormiam. Procuramos não fazer barulho.
Nos despedimos e, antes que caíssemos no sono, ainda ouvi suspiros de
choro contido por um aconchegante abraço de tigre.
O
resto da viagem correu bem. Yuri, apesar da saudade, curtiu
a viagem e se encantou com a beleza da região. Tenho certeza
que esta foi uma experiência inesquecível para ele. E, sem
dúvida, para mim.
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