Os mercadores franceses, no século passado, em plena expansão colonial européia, aventuraram-se até o coração da península européia da Indochina. Mas quando descobriram as encantadas ruínas de Angkor, não suspeitaram que percorriam na verdade uma rota comercial de quase dois mil anos.
Angkor - Foto: Adriano Gambarini

De fato, a influência vantajosa dos ventos (monção) tornou esta a rota direta para a Índia. Pelo Oceano Índico, esse era o caminho percorrido pelos navegadores gregos, sírios, romanos e espanhóis. Eles partiam no Verão (bons Ventos) do Porto de Ostia, de Alexandria no Egito, ou de Cherchel na África do Norte, trazendo seus carregamentos de trigo, vinho, azeite, ferro, ouro, papiro e animais selvagens. Se somássemos todo o tempo despendido em paradas para reabastecimento e recarregamento, para ir da Itália à Índia, uma boa média seria três meses e meio. Chegava-se em Outubro e regressava-se com o início da monção inversa, em Abril. Neste retorno, levavam seda, incenso, pimenta, canela, perfumes e metais.

Antes destes, a rota foi utilizada por outros mercadores, ainda mais antigos. Os hindus, hábeis comerciantes, lançaram-se ao mar, explorando o Oceano indico. Essas expedições deram início à política de penetração nos países costeiros, por meios de postos de intercâmbio. A partir destas bases, onde os produtos do oriente se acumulavam para serem trocados pelo ouro, os mercadores hindus difundiram seu modelo de vida, religião, língua ( o sânscrito) e cultura.

Era através da Rota da Seda marítima, utilizada sobretudo no fim do século I, que as mercadorias eram transportadas até os portos da costa Ocidental, onde os comerciantes persas, árabes e os próprios europeus faziam então o comércio. Seu curso partia da baía de Kouang Tcheou na China Meridional e contornava a Península Indochinesa, atravessando o estreito de Malaca até a foz do Ganges, de onde perdia a navegabilidade.

Grande parte destas mercadorias chegava da Índia, apesar dela não conseguir comportar todas as necessidades e luxos do Império Romano. Por isso, como a demanda crescia constantemente, produtos também eram procurados na fértil planície cambojana, que recebeu a influência hindu numa fusão com a cultura local. Lentamente, a região foi assimilando as novas tendências. Por isso, nos templos de Angkor, a arte khmer assume como motivo inspirador as divindades do panteão hindu (os deuses Xiva e Vixnu), assim como o budismo, representado pelas numerosas estátuas de Buda existentes no complexo.

Ao que tudo indica, no final do século I, a maior parte da Seda importada para países mediterrâneos passava por esta via. Foi assim que o somatório de embustes de piratas mediterrâneos, dos tufões freqüentes na região, dos custos e do tempo da empreitada, além do próprio fortalecimento dos grandes impérios consolidou a segurança e a solidez da Rota Terrestre da Seda - a rota das caravanas.

A civilização que ocupava a região ainda não era chamada de Khmer, fato que só aconteceria após um curto período de desenvolvimento, quando foram fixadas e estabelecidas no Cambodgia formas políticas e religiosas hindus. O edifício tinha no centro o imperador, soberano e absoluto, a quem se dava o título romântico de Rei da Montanha. A montanha simbolizava a imagem mítica do monte Meru, residência dos deuses, que podia ser considerada o Olimpo Cambodianos. Depois deste primeiro período, a supremacia desta belicosa tribo montanhesa se consolidou por completo. Os khmer, então, governaram soberanos até o século XV.

Aproveitando-se das escrituras dos textos hindus ( Vedas, o Mahabarata e Ramaiana), que atribuía aos deuses sucessivas encarnações, os governantes Khemer apresentaram-se como os equivalentes terrestres de uma dessas divindades: Xiva, que ganhou uma base real num templo devidamente situado na montanha pensada como centro do universo. Esta concepção teológica teve como arcabouço arquitetônico não palácios, mas templos.

Nos caminhos de Angkor - Adriano Gambarini

Os soberanos Khmer, de acordo com a hierarquia de suas divindades, não precisavam de casas. Cada um deles dedicou a si mesmo um templo, um templo-montanha naturalmente.

No inicio do século IX, Jaiavarman II, um desses rei-deuses, estabelece-se em Angkor, um deserto transformado num verde e encantador jardim com grandes bacias artificiais de água, onde ergueu-se a capital do império. Por mais de 500 anos, do século IX ao século XIII, os soberanos construíram nesta região seus templos, muito semelhantes quanto à forma dos templos hindus.

Por esta razão, em Angkor, surgiu a obra prima da arte Khmer: a síntese de uma arte cheia de tensão teológica, centrada no culto aos seus reis divinos. O templo tem os seus antecedentes assim como o soberano que o concebeu tem os seus antecessores. Mas foi durante o período do rei -deus Suriavarman, que o complexo atingiu seu apogeu arquitetônico, refletindo a enorme expansão deste império - o qual, neste período, anexou uma boa parte do Vietnã, amplo setor da Birmânia e quase toda a Península de Malaca para o sul, entre outros.

O soberano, para que não pairassem dúvidas sob a sua divindade, começou a construir em sua própria honra um magnífico templo- montanha: o Angkor - Vat, que não se distingue substancialmente das tradicionais linhas de arquitetura cambojana, mas atinge uma maturidade e perfeição nunca antes concretizada.

A morte do deus - Sol Suriavarman II - cujo nome significa "protegido do Sol" - provocou o ocaso da glória imperial. Em seguida, Angkor teria sido abandonado, como conseqüência de uma revolução interior, que transformou em desastre uma derrota exterior - freqüentes embates com os Thai. Isso resultou na dificuldade de manter os canais de abastecimento, fundamentais para a sobrevivência da cidade. Os soberanos khmers que o sucederam tornaram-se budistas. Renunciaram, com isto, ao triunfante privilégio de se considerarem deuses encarnados. O templo de Suriavarman converteu-se em templo budista, fato do qual deriva-se o nome Angkor - Vat, que quer dizer "cidade real transformada em templo budista".

Pouco a pouco, os canais que transportavam água ( Tonle Sap ) ficaram obstruídos. A malária tornou-se uma epidemia e o oásis converteu-se novamente em deserto. Sobre a obra, caiu o silêncio do abandono que perdurou mais de 300 anos. Até que, no século XIX, o naturalista francês Henri Monhot, caçador de borboletas, revelou o lugar para o ocidente. As ruínas da antiga capital (numa área de 100 km quadrados), encoberta por uma intrincada selva, foram relatadas pelo aventureiro francês, que enviou seu diário de viagem para seu irmão, na França. A narrativa foi então publicada. E suas eloqüentes descrições comoveram as autoridades francesas, que destinaram fundos e promoveram fabulosas restaurações neste paraíso perdido.

Adaptado do texto Angkor - Vat , Giuliana Gattoni ( Maravilhas do Mundo). Editora Salvat do Brasil, Ltda. 1984 .




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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